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Hoje, dia 7 de julho o Monumental Órgão de Tubos na Igreja de Nossa Senhora da Lapa, comemora 29 anos. Celebrar o aniversário deste Majestoso Órgão de Tubos, é celebrar a transcendência que o seu som permite vislumbrar tanto por quem nele executa as mais ricas obras, como por quem ouve e procura esta oferta do divino.

Para assinalar a data, a Irmandade da Lapa convidou a estrela mundialmente aclamada Shin-Young Lee, para a realização de um concerto às 21:30, com obras de Julius REUBKE (1834-1858) e Charles-Marie WIDOR (1844-1937).

A Igreja da Lapa é possuidora de um imponente órgão de tubos que pesa cerca de 34 toneladas e tem 12 metros de altura, 10 metros de largura e 5 metros de profundidade. Dispõe de 64 registos distribuídos por 4 teclados, uma pedaleira e um computador com mais de 26.000 combinações. No total, o órgão possui 4307 tubos e um carrilhão com 42 sinos.

Obra-prima do organeiro alemão Georg Jann, peça fundamental nos Concertos e Missas na Igreja da Lapa.

Por ele já passaram alguns dos melhores organistas do mundo. Cada um, contribuindo para o enriquecimento da história deste que é o rei de todos os instrumentos.


Igreja da Lapa - Porto
Filipe Veríssimo

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"Quando caminhamos de mãos dadas, chegamos juntos"*

Um coro é um grupo de cantores distribuídos por naipes segundo a tessitura das suas vozes. Sopranos, Contraltos, Tenores e Baixos, compõem um coro misto.

Ainda que afeito à música, o canto em coro vai além das questões musicais e converte-se numa atividade que envolve a sociologia, a musicoterapia, psicologia, a antropologia, a fonoaudiologia e outras ciências afins.

Cantar em coro tem origens ancestrais e sempre fez parte integrante dos rituais místicos e religiosos do ser humano, estando intimamente ligada a locais de adoração como as igrejas. Esta atividade é aliada de uma mais leve e vida feliz. São muitos os benefícios sociológicos do canto em coro. Todos os elementos do grupo devem evoluir ao mesmo nível de forma a uniformizar as prestações do coro para a harmonia final. Tal característica estimula o espírito de equipa entre os participantes, de modo que um colabora com o outro para atingir a meta do grupo. Por outro lado, o contato social entre os membros do coro contribui para a sensação de pertencimento e unidade.

Investigações científicas têm apontado para um aumento dos níveis de felicidade, além de redução de sintomas como ansiedade, stress, depressão e vícios entre os coralistas. Cantar em coro afeta positivamente a produção do cortisol e da imunoglobulina, melhorando o sistema imunológico e os processos emocionais (como a redução de stress e depressão). Isso explica porque pacientes em tratamento oncológico que são introduzidos no coro apresentam melhoria de dificuldades emocionais e também no próprio tratamento.

Mais, estudos chegaram a uma conclusão curiosa. Não são só as vozes que se harmonizam quando se canta num coro: também os batimentos cardíacos se sincronizam durante a música, acelerando e desacelerando em uníssono.

E nós, Coro Polifónico da Lapa seguimos ao nosso ritmo.

*Elis Busanello

Vivyane Tavares

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Vivemos tempos conturbados em que caminhamos dramaticamente para o completo esquecimento de que o dado primordial da condição humana é a referência ao outro. A identidade pessoal do humano só se adquire na concretude da relação, mediante laços de pertença a um meio, a um tecido relacional, a uma comunidade. Com efeito, o ser humano só se realiza e plenifica no «sincero dom de si mesmo» (Gaudium et Spes, 24), no confronto relacional e dialógico com o outro humano diferente.

No entanto, patologias comunitárias assentes num «paradigma de totalidade fechada e excludente»1 impedem a realização de uma comunidade humana capaz de efetivar a dimensão universal da fraternidade. Neste sentido, e segundo o jesuíta francês Michel de Certeau, a constituição da relação comunitária deve reger-se pelo princípio da insuficiência: «“Tu fazes-me falta”. Duas palavras, uma dupla negação, indicam a força desta experiência: “Não sem”. É impossível sem ti»2. Assim estabelecida, a comunidade - enquanto processo de radical exposição ao outro (cf. Esposito) que nos falta, e que se fundamenta no Totalmente Outro - rompe com o individualismo e a autossuficiência absoluta e acentua a interdependência, impondo uma gramática de excesso, de cuidado mútuo.

A comunidade constitui-se, então, como um processo de constante abertura ao exterior, ao que transcende (e ao Transcendente), e que se concretiza no acolhimento incondicional do próximo. Entendido não como sujeito ou categoria social, mas como evento (cf. Paul Ricoeur), o próximo supera a configuração institucional e a história, a proximidade física e as contingências da consciência intencional (cf. Levinas) para articular o universal concreto. A proximidade é a presença do outro que transpõe o tempo e o espaço; não é um estado, mas uma inquietude que nos instiga a estabelecer uma relação com o outro e nos torna responsáveis por ele.

O filósofo judeu Emmanuel Levinas expõe, brilhantemente, esta proximidade do outro pela manifestação do rosto, que não é tão-só o rosto físico, mas aquilo que me interpela e me faz por ele responsável. O outro levinasiano não é empírico nem puramente fenomenológico, mas trata-se de uma presença real que posso olhar e que me olha, no encontro face-a-face. É presença dada como exterioridade, mas que não se limita à sua manifestação exterior, pois é uma exterioridade que vem de uma interioridade.

Mais: para Levinas o rosto na sua própria verticalidade/integridade mostra-se despido, exposto e vulnerável, constituindo-se como abertura à miséria e à pobreza dos outros que estão na mesma condição. Dele advém um imperativo ético que exige justiça e acolhimento: o rosto obriga a não agir com indiferença e a exercer uma responsabilidade ilimitada e intransferível. É o rosto que dá significado à ética da alteridade, desafiando a respeitar, cuidar e promover o outro.

E é no acolhimento amoroso do rosto do outro que se dá o reconhecimento da abertura de dois corações que se geram reciprocamente; é não só a ordo amoris, mas também o amor ordinis. O mandamento do amor ao próximo é, portanto, a «única forma verdadeiramente humana de ser humano»3. Nas palavras de Emmanuel Mounier: «O ato de amor é a mais forte certeza do homem, o “cogito” existencial irrefutável: amo, logo o ser é, e a vida vale (a pena ser vivida)»4.

Rita Santos
Jornalista (CP 6370)
Mestranda em Ciências Religiosas



1 João Manuel Duque, O Próximo e a Comunidade: Breve leitura da Fratelli Tutti, 5.
2 Michel de Certeau, La faiblesse de croire (Paris: Ed. du Seuil, 1987), 112.
3 Duque, O Próximo e a Comunidade: Breve leitura da Fratelli Tutti, 17.
4 Emmanuel Mounier, Le personalism (Paris: Les Presses universitaires de France, 1949), 39.

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Foi Mahler que chamou o Pedro até nós. Graças à música, ao trabalho e às gentes, permaneceu. É que, aqui no Coro Polifónico da Lapa faz-se música. Interpretamos, vivemos, tocamos e há espaço ainda para a criação. É uma das coisas que nos diferencia, esta visão e generosidade da liderança que nos motiva, nos desafia, vê antecipadamente, faz acontecer. O Pedro foi convidado pelo Mestre-capela a escrever música sacra. Aceitou o desafio e compôs este, que é o primeiro Salmo de sua autoria. Estreou hoje na Missa Solene na Igreja da Lapa, pela voz da Alexandra Quinta e Costa e pelo Coro Polifónico da Lapa, Tiago Ferreira no órgão e direção de Filipe Veríssimo.

Ao ouvirem esta composição, é reveladora a sua contemporaneidade, leveza, doçura e paz. É que Pedro, compositor e pianista, nasceu a 22 de fevereiro de 2006 e atualmente frequenta o 12.º ano do Curso Profissional de Instrumentista de Cordas e Teclas (Piano) na Academia de Música de Costa Cabral sob a orientação do professor Jaime Mota. Em 2021, Pedro embarcou numa nova área ao iniciar os seus estudos de composição, recebendo aulas particulares do professor Evgueni Zoudilkine, docente da Universidade de Aveiro. Pretende prosseguir os estudos de composição na Escola Superior de Música de Lisboa e o Coro Polifónico da Lapa e o seu Maestro orgulham-se de serem presença neste currículo, cujos passos o Pedro escolheu dar.

Vivyane Tavares

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Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo.
A sua religião não tem valor algum!

(Tiago 1:26)

Hoje celebramos Deus.

Simples assim, celebramos Deus.

São Patrício explicava o mistério da Santíssima Trindade comparando com um trevo. Dizia que cada folha é diferente, mas as três formam o trevo. E o mesmo acontece com Deus, onde cada um de nós é Deus e formamos a Santíssima Trindade.

Em nome de Deus são feitas as obras mais belas, mais relevantes, mais humanas, mais corajosas, mais caridosas e mais bondosas.

Cristão que me lês, atenção! Também em nome de um deus, que não é o mesmo, são cometidas injustiças, crimes e atrocidades todos os dias.

Como reconhecer se o Homem fala em nome de Deus?

E quando digo Homem, digo a Rita, a Luísa, a Ana, Miguel, Simão, Filipe, Maria, Manuela, José, Jesus, Judas, porque todos temos nomes, todos devemos honrar em primeiro lugar o nosso nome. E só podemos honrar o nosso nome se formos dignos e honrarmos o nome do próximo.

Para reconhecermos se o Homem fala em nome de Deus, devemos abrir a Sagrada Escritura, principalmente o Novo Testamento, e ler com o coração, o que Jesus, o Verbo Encarnado, nos diz. Simples assim.

São Paulo na sua Carta aos Coríntios conduz-nos à resposta: o homem deverá deixar-se transfigurar através dos dons, das qualidades divinas, sobretudo através do amor, do perdão e do serviço.

O mistério da Trindade não pode ser deslindado, precisamente por ser… um mistério. Mas podemos senti-lo revelado em nós:

- Quando “fazemos o bem, sem olhar a quem”;

- Quando procuramos o Caminho dentro de nós e não nas vãs palavras dos outros;

- Quando escutamos a Deus e não às línguas sem valor, mesmo que se digam imbuídas da mais alta moralidade oca, vã e abjeta;

- Quando travamos as indignidades e inverdades que nos chegam aos ouvidos, mas a nossa boca não repete, porque escolhemos ser luz;

- Quando não julgamos o próximo, porque escolhemos ser justos;

- Quando escolhemos ser amor, perdão e serviço, escolhemos ser trinitários.

Deus convida a Igreja a ser e a viver à Sua imagem e semelhança, a ser e a viver em perfeita comunhão de amor. Eu aceito este convite com toda a humildade e força. E tu querido leitor? E tu? Vais ser soldado de Deus ou escravo do homem?

Liberta-te na Santíssima Trindade. Abraça o mistério e vem sentir a transcendência do majestoso Órgão de Tubos da Igreja da Lapa, tua Casa, nossa Casa e das nossas vozes em comunhão, as nossas vozes são vossas.

Todos juntos somos uma só Voz trinitária com Deus.

Atentemos nas sábias palavras do nosso Reitor Agostinho Pedroso, em 20 de setembro de 1984

“Será que a música ajuda a penetrar o mistério?

Podemos então dizer que a linguagem dos sons criada pelo homem torna-se um símbolo humano. Eis o serviço que a música presta à Palavra; e eis, também, a importância do cantar: uma frase que se deseja percebida e vivida; uma palavra-chave que se quer sublinhar; ou uma simples sílaba com a qual podemos jubilar, diríamos mesmo brincar (no sentido mais elevado do termo).

E a Liturgia tem necessidade deste elemento. (…)

Mas o canto tem ainda uma capacidade excecional de fazer comunidade. (…)

Não esqueçamos que tudo o que compõe o ambiente no qual se desenrola a celebração deverá levar o homem à abertura ao símbolo e daí à contemplação do mistério.”

Nas palavras do Reitor está a assunção do valor inestimável do trabalho prestado pelo Coro Polifónico da Lapa, desde 1998 até à data. Sempre a procurar elevar a comunidade à contemplação do mistério. E este é o dia! O dia da Solenidade da Santíssima Trindade.

Nas palavras do Reitor vive a consagração da importância da função do Mestre-Capela na liderança do Coro, nesta busca da elevação espiritual da comunidade, pois ainda afirma:

“Aprendamos a mover-nos dentro da complexidade dos elementos e categorias sociais, culturais, religiosas e musicais e estaremos a favorecer o aparecimento de assembleias mais lúcidas e completas, assembleias que serão o exemplo vivo de que «celebrar cantando» e tocando é estar mais próximo do mistério cristão vivido em cada celebração.”

Recentemente, o Reverendíssimo Bispo do Porto, D. Manuel Linda foi homenageado pelo Observatório Internacional de Direitos Humanos como “Embaixador da Paz, da Boa Vontade e da Tolerância”, uma distinção que atribuiu à “Igreja do Porto”, disse:

“Um reconhecimento de algo que não sou eu que faço, mas é a Igreja do Porto, que procura estar com atenção aos direitos das pessoas. ”(Ecclesia)

Esta atenção aos direitos das pessoas é a rede de segurança da nossa comunidade cristã. O saber que tudo será feito para repor a justiça na Igreja, independentemente, da justiça estar já a ser feita pela lei dos homens.

D. Manuel Linda afirma que a maledicência é "mais típica do diabo, que é mentiroso e pai da mentira, do que de cristãos que formam todos o mesmo corpo e que se alimentam do corpo e sangue do Senhor” e pede o fim da maledicência na Igreja. (Henrique Cunha, rádio renascença)

Contudo, façam isso com mansidão e respeito, conservando boa consciência, de forma que os que falam maldosamente contra o bom procedimento de vocês, porque estão em Cristo, fiquem envergonhados de suas calúnias.

(1 Pedro 3:16)

A maledicência atualmente é exponencialmente veiculada por pessoas da comunidade que podem sofrer dos mais variados síndromes, por exemplo, transtorno histriónico, mitomania ou só pura escuridão. A maledicência entra nas nossas casas pela porta sempre aberta da internet. Compete a cada um de nós expulsá-la das nossas vidas, dos nossos corações, da nossa comunidade cristã e viver a transcendência espiritual na Eucaristia, juntos.

"Não espalharás notícias falsas, nem darás a mão ao ímpio para seres testemunha de injustiça."

(Êxodo 23:1)

É como eu digo… simples assim.

Vivyane Tavares

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A expectativa era grande, o entusiasmo patenteado no olhar, e ao entrarmos na sala do piano era-nos entregue a partitura imaculada da "Missa de Requiem" de Giuseppe Verdi. 

Folheamos puerilmente para absorver o aroma das folhas intocadas como no primeiro dia de escola. A tinta da caneta marcava o nosso nome naquele pedacinho de história de capa verde pastel. O peso corresponde à duração de noventa minutos de peça.

Há 150 anos, no dia de hoje, 22 de maio, era pela primeira vez apresentada esta magnífica obra para marcar o primeiro aniversário da morte de Alessandro Manzoni, um poeta e romancista italiano que Verdi admirava profundamente, daí que esta Missa seja por vezes ainda referida como "Requiem de Manzoni".

Nesse dia, o próprio Verdi regeu a obra, com todo o sentimento de homenagem, por aquele que o inspirou a rapidamente concluir este Requiem que inicialmente não lhe era dedicado, mas foi de tal forma impactante a sua influência no compositor, que foi para Manzoni que a rematou e devotou.

Com os seus caracóis fartos grisalhos, barba branca e bigode de pontas, na Igreja de São Marcos em Milão, Verdi fez soar a primeira nota de “Requiem e Kyrie eleison”. Seguiam-se ritmos vigorosos, melodias sublimes e contrastes dramáticos com igual caráter das suas óperas, levando o público a viver as fortes emoções marcadas pelo texto, num ambiente fúnebre de súplica e esperança..."Requiem aeternam dona eis, Domine”, ou seja, "concedei-lhes descanso eterno, ó Senhor".

"Dies Irae" chega com compassos de familiaridade e pulsa no ouvinte interiormente, como que trespassado pelos metais, num sentimento de Juízo Final resultante das marcações de quádruplo fortíssimo nos metais e no coro, fazendo desta, uma das obras musicais de volume mais elevado já produzidas sem o uso de amplificação. E súbito, "Ingemisco" com uma entrada "a capella" do tenor Giuseppe Coppini implorando o perdão do Senhor em tons e ritmos expressivos de esperança. E talvez até a "Madonna" de Lomazzo que lá adorna as seculares paredes, tenha vertido uma lágrima na bela "Lacrimosa", composta por Verdi a partir do dueto "Qui me rendra ce mort? Ô funèbres abîmes!", do quarto ato de sua ópera Don Carlos.

Desde esse dia há 150 anos, foi executada em diversos lugares e países, apresentada sete vezes na Opéra-Comique de Paris, e em Veneza excederam- se na decoração bizantina concebida para a ocasião. Correu mundo e chegou à Igreja da Lapa, está nas mãos do Coro Polifónico da Lapa e do seu Maestro, e diariamente acompanha o Jorge (baixo), cuidadosamente acondicionada na sua mochila, porque levamos sempre connosco aquilo que nos é mais precioso. E é assim que a nossa bagagem vai ficando mais rica sem ficar mais pesada.

Vivyane Tavares

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Cónego Dr. António Ferreira dos Santos: Uma Vida ao Serviço da Música Sacra e da Igreja

29-06-2026

Homenagear o Cónego Dr. António Ferreira dos Santos é prestar tributo a uma das mais notáveis figuras da música sacra portuguesa contemporânea. A sua vida constitui um exemplo raro de dedicação ao sacerdócio, à cultura, à liturgia e à arte, deixando uma marca profunda na Igreja e na sociedade portuguesa.

Ao lado de Manuel Faria, em Braga, e de Manuel Luís, em Lisboa, forma o trio de referência da História da Música Sacra do século XX em Portugal. A sua obra e ação constituem um dos pilares da renovação do ensino, da prática e da criação musical ao serviço da liturgia, elevando a música sacra portuguesa a um patamar de excelência e reconhecimento internacional.

A sua sólida formação académica testemunha o rigor com que sempre encarou a missão que abraçou. Frequentou o Conservatório de Música do Porto, concluiu o Curso Superior de Órgão e o Curso de Música Sacra da Escola Superior de Música de Munique, na Alemanha, e aperfeiçoou-se no Curso Internacional de Órgão, em Salzburgo, orientado pelo Professor Emil Sauer. Trouxe para Portugal não apenas conhecimento técnico, mas uma visão renovada da música litúrgica que transformou gerações de músicos e comunidades cristãs.

A dimensão da sua obra é verdadeiramente impressionante. Foi fundador do Coro da Sé Catedral do Porto, da Escola Diocesana de Música Litúrgica, do Boletim de Música Litúrgica, do agrupamento de metais e tímpanos Solemnium Concentus, do Coro Polifónico da Lapa, da Orquestra Sine Nomine, do Grupo Coral Douro Canta e da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, da qual foi também diretor.

Como mestre-capela da Sé do Porto, professor, maestro, compositor, organista e pedagogo, formou sucessivas gerações de músicos, regentes, organistas, cantores e compositores. Foi decisivo na criação das licenciaturas e pós-graduações em Música Sacra frequentadas por numerosos portugueses em Ratisbona e Munique, tornando-se uma referência incontornável na formação superior nesta área.

A sua ação estendeu-se igualmente ao património organístico nacional. Foi o grande impulsionador da construção de vários órgãos de tubos, destacando-se os quatro grandes instrumentos da cidade do Porto: o da Sé Catedral, o da Igreja da Lapa, o da Igreja da Senhora da Conceição e o da Igreja Nova de São Martinho de Cedofeita. Como conselheiro do IPPAR para o órgão de tubos, contribuiu decisivamente para a valorização e preservação deste património ímpar.

Desempenhou igualmente relevantes funções nacionais e internacionais: presidiu ao Serviço Nacional de Música Sacra, à Conferência Europeia para a Defesa e Promoção da Música da Igreja, integrou o Conselho Científico da Escola Superior de Música do Porto, participou na Comissão Interministerial para a Reforma do Ensino Artístico e presidiu ao júri governamental que distinguiu as maiores revelações musicais do país.

Enquanto compositor, legou obras de profundo significado espiritual e artístico. Entre elas destaca-se o monumental Requiem em memória do Infante D. Henrique, o primeiro de grande dimensão coral-sinfónica escrito em língua portuguesa, bem como a obra Portugal, composta em homenagem às vítimas da queda da Ponte das Barcas.

O reconhecimento público da sua extraordinária dedicação traduziu-se em inúmeras distinções, entre as quais a Medalha de Ouro da Cidade do Porto, a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Santo Tirso, a condecoração de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, a Grã-Cruz de Mérito Cultural da República Federal da Alemanha e a eleição como sócio da Academia Nacional de Belas Artes.

No passado dia 28 de junho, a Igreja da Lapa acolheu uma significativa celebração de ação de graças em sua homenagem. O Coro Polifónico da Lapa, acompanhado pelo Quinteto de Metais e Tímpanos da Lapa e pelo monumental órgão de tubos daquela igreja, um instrumento cuja existência tanto lhe deve, interpretou um programa que reuniu obras do próprio homenageado e quatro dos mais sublimes motetes de Anton Bruckner: Ecce Sacerdos Magnus, Ave Maria, Os Justi e Tota Pulchra es, Maria - “Tu és toda bela, Maria”.

A escolha deste repertório revestiu-se de um profundo significado. As palavras de Ecce Sacerdos Magnus «Eis o grande sacerdote que, nos seus dias, agradou a Deus e foi encontrado justo.» parecem descrever, com admirável fidelidade, o percurso de uma vida totalmente entregue ao serviço de Deus, da Igreja e da música.

Do mesmo modo, as palavras de Os Justi «A boca dos justos profere a sabedoria, e a sua língua anuncia a justiça; a lei do seu Deus está no seu coração.» refletem de forma particularmente feliz a personalidade, o testemunho sacerdotal e a missão educativa do Cónego António Ferreira dos Santos. Ao longo de décadas, a sua palavra ensinou, a sua música evangelizou e o seu exemplo inspirou incontáveis discípulos.

Mais do que um extraordinário músico, maestro ou compositor, o Cónego Dr. António Ferreira dos Santos é um verdadeiro mestre de gerações. A sua visão, o seu saber, a sua exigência artística e a sua fidelidade à missão da Igreja moldaram profundamente a música litúrgica portuguesa contemporânea.

O seu legado permanecerá vivo nas instituições que fundou, nos músicos que formou, nos órgãos que promoveu, nas obras que compôs e, sobretudo, em todos aqueles que aprenderam com ele que a verdadeira música sacra é, antes de tudo, uma forma elevada de oração.

Por tudo isto, o seu nome pertence, com inteira justiça, ao património maior da cultura musical e religiosa de Portugal.

Acresce ainda uma dimensão particularmente marcante da sua ação pastoral e cultural: durante mais de três décadas exerceu o ministério de Reitor da Igreja da Lapa, deixando uma marca indelével na vida daquela comunidade. Sob a sua orientação, a Igreja da Lapa afirmou-se como um dos mais importantes centros de música sacra do país, onde a liturgia sempre foi servida com particular dignidade e excelência artística. Foi igualmente por sua visão e determinação que a instituição passou a contar, de forma permanente, com um Mestre de Capela ao seu serviço, assegurando a continuidade de uma tradição musical de elevado nível, ao serviço da oração, da liturgia e da evangelização.

O Coro Polifónico da Lapa, cuja existência e percurso artístico tanto lhe devem, manifesta a sua mais profunda gratidão ao seu fundador e inspirador. Ao longo de décadas, encontrou no Cónego Dr. António Ferreira dos Santos um mestre exigente, um sacerdote dedicado e um exemplo de fidelidade à Igreja e à beleza da liturgia. A sua confiança, o seu ensinamento e a sua permanente dedicação permitiram que o Coro crescesse como verdadeira comunidade de serviço, colocando os seus talentos ao serviço de Deus e da assembleia litúrgica.

A homenagem prestada constitui, por isso, não apenas um reconhecimento do seu extraordinário percurso, mas também um sincero gesto de gratidão de todos aqueles que tiveram o privilégio de aprender com ele e de com ele partilhar a missão de dignificar a música sacra. Que o seu exemplo continue a inspirar as gerações futuras e que o seu legado permaneça vivo na Igreja, na cultura portuguesa e, de modo muito especial, na Igreja da Lapa, cuja história ficará para sempre ligada ao seu nome.

Filipe Veríssimo, Mestre de Capela da Lapa



Foto: Pedro Couto


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Mais do que Música: o que Construímos Juntos

09-05-2026

Há caminhos que se percorrem com os pés.
E há outros que só se atravessam com alma, coragem e entrega absoluta.

Entre Março e Maio, vivemos uma dessas travessias raras.
Sete concertos. Cinco cidades. Quatro programas distintos. Dois meses de intensidade humana e artística que dificilmente cabem em números mas que ficarão para sempre inscritos na memória de quem os viveu.

Começámos a 14 de Março, na Igreja da Lapa, onde o Nulla in mundo pax sincera, o Magnificat e o Gloria de Antonio Vivaldi abriram este percurso com luz, fé e esperança.

Dias depois, a 17 de Março, a imponência da Casa da Música recebeu a monumental 2.ª Sinfonia de Gustav Mahler, uma obra que exige tudo: técnica, resistência, vulnerabilidade e verdade. E tudo foi dado.

Março terminou e Abril abriu sob a sombra luminosa do Requiem de Wolfgang Amadeus Mozart:
na Casa das Artes de Famalicão,
na Igreja Matriz de São Pedro da Cova,
e novamente na Igreja da Lapa.

Três apresentações. Três encontros diferentes com a mesma eternidade.
Três noites onde a música se tornou silêncio interior, memória e transcendência.

E então Maio trouxe a força telúrica de Carmina Burana, de Carl Orff:
a 7 de Maio no Europarque
e hoje, 9 de Maio, no Teatro Municipal da Guarda.

Mas, pelo meio desta verdadeira maratona artística, houve ainda o compromisso contínuo e silencioso das celebrações dominicais do meio-dia na Igreja da Lapa, momentos menos visíveis, talvez, mas igualmente fundamentais na nossa missão musical e humana.
Com especial emoção, permanecem na memória as celebrações do Domingo da Ressurreição e da Festa de Nossa Senhora da Lapa, vividas com particular intensidade, fé e comunhão.

Mais de 5000 ouvintes cruzaram connosco este caminho.
Mais de 5000 pessoas testemunharam algo que ultrapassa partituras, ensaios, palcos ou aplausos. Porque a verdadeira dimensão deste feito não está apenas na exigência artística alcançada, mas na humanidade que a tornou possível.

Cada músico, cada cantor, cada maestro, cada técnico, cada colaborador, cada pessoa que esteve nos bastidores ou na plateia ajudou a construir algo maior do que um ciclo de concertos: construiu comunidade, memória e sentido.

Foi cansativo. Foi exigente. Por vezes, quase impossível.
Mas a música, quando é feita com verdade, tem esta capacidade extraordinária de unir vontades, superar limites e transformar esforço em beleza.

A todos os que fizeram parte desta caminhada:
obrigado pela disciplina nos dias difíceis, pela generosidade nos momentos decisivos, pela confiança mútua, pela amizade, pela entrega e pela coragem de acreditar que era possível.

O que alcançámos pertence agora à memória destes lugares, destas cidades e destas pessoas.
Mas pertence, acima de tudo, a todos aqueles que ousaram sonhar em conjunto.

E isso ficará muito depois do último acorde se extinguir.

Filipe Veríssimo


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Tradicional Concerto de Natal na Lapa

20-12-2025

O Tradicional Concerto de Natal na Igreja da Lapa, realizado no dia 13 de dezembro, voltou a reunir música, espiritualidade e comunidade num dos momentos mais aguardados da programação cultural natalícia. A Igreja da Lapa proporcionou o cenário ideal para uma noite marcada pelo profundo simbolismo da época.

A interpretação esteve a cargo da Orquestra Filarmónica Portuguesa, sob a direção do maestro Osvaldo Ferreira, que conduziu o concerto com grande sensibilidade musical. O elenco de solistas reuniu as vozes de Alexandra Quinta e Costa (soprano), Ella Feldmeier (mezzo-soprano), Marco Alves dos Santos (tenor) e Hugo Oliveira (baixo), cujas interpretações se destacaram pela expressividade e perfeita integração com a orquestra e o coro.

O núcleo central do repertório foi a Cantata de Natal (1ª parte - Cantatas I e II) de Johann Sebastian Bach, uma das obras mais emblemáticas do período barroco e profundamente ligada à celebração litúrgica do Natal. Estruturada em várias cantatas destinadas aos dias festivos entre o Natal e a Epifania, a obra combina coros de grande solenidade com árias e recitativos de intensa carga espiritual. A música de Bach, simultaneamente majestosa e intimista, convidou o público a uma vivência profunda do mistério do Natal, num diálogo constante entre texto, música e fé.

O Coro Polifónico da Lapa, preparado e dirigido pelo maestro Filipe Veríssimo, teve um papel determinante na construção sonora da obra, revelando uma sonoridade que enriqueceu todo o programa.

O concerto culminou com o tema Adeste Fideles, tradicionalmente atribuído a D. João IV, momento particularmente emotivo que contou com a participação do público. Este gesto simbólico transformou a interpretação final num verdadeiro momento de comunhão, unindo intérpretes e ouvintes num cântico coletivo de celebração e esperança.

A noite encerrou sob fortes aplausos e num ambiente de grande emoção, reafirmando o Concerto de Natal na Igreja da Lapa como uma tradição viva, onde a música se alia ao espírito natalício e à partilha comunitária.


Foto de Capa: @pedro.couto


Excerto do Tradicional Concerto de Natal na Igreja da Lapa
Som gravado ao vivo pela Orquestra Filarmónica Portuguesa


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