A Grande Missa em Dó menor é uma das criações mais ambiciosas de Mozart no campo da música sacra. Inacabada, permanece até hoje envolta em mistério – tanto sobre os motivos que levaram o compositor a não concluí-la quanto sobre os contornos exatos da sua primeira apresentação. Composta em 1782–83, acredita-se que a Missa tenha sido escrita como uma promessa ou expressão de gratidão, possivelmente relacionada ao casamento de Mozart com Constanze Weber. Apesar das lacunas significativas – faltam o Agnus Dei, partes do Credo e secções orquestrais por finalizar – a Missa apresenta momentos de profundo dramatismo, lirismo e solenidade. A estrutura, que se aproxima de uma missa-cantata, revela a admiração de Mozart por mestres do Barroco como Bach e Händel, perceptível em passagens corais imponentes, na escrita contrapontística e na exuberância vocal, como no célebre *Domine Deus*, um dueto pirotécnico para sopranos, ou o Et incarnatus est, uma das mais belas páginas mozartianas, com cadência final partilhada entre soprano, flauta, oboé e fagote. A edição moderna da obra, baseada em esforços de musicólogos como Franz Beyer e H. C. Robbins Landon, procura respeitar a integridade do material sobrevivente, tornando-o performativo, embora sem tentar completar o que Mozart deixou por terminar. Mesmo em estado fragmentário, esta Missa representa uma das maiores realizações da música sacra ocidental, sendo frequentemente colocada ao lado de monumentos como a Missa em Si Menor de Bach e a Missa Solemnis de Beethoven – não só pelo seu impacto artístico, mas pelo que sugere de uma espiritualidade intensa, pessoal e visionária.
Wolfgand Amadeus MOZART (1756-1791)
Missa em Dó menor
Carla Caramujo, soprano I
Alexandra Quinta e Costa, soprano II
Marco Alves dos Santos, tenor
Tiago Matos, baixo
Coro Polifónico da Lapa
Filipe Veríssimo, maestro do coro
Orquestra Filarmónica Portuguesa
Osvaldo Ferreira, direção
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O Tradicional Concerto de Natal na Igreja da Lapa, realizado no dia 13 de dezembro, voltou a reunir música, espiritualidade e comunidade num dos momentos mais aguardados da programação cultural natalícia. A Igreja da Lapa proporcionou o cenário ideal para uma noite marcada pelo profundo simbolismo da época.
A interpretação esteve a cargo da Orquestra Filarmónica Portuguesa, sob a direção do maestro Osvaldo Ferreira, que conduziu o concerto com grande sensibilidade musical. O elenco de solistas reuniu as vozes de Alexandra Quinta e Costa (soprano), Ella Feldmeier (mezzo-soprano), Marco Alves dos Santos (tenor) e Hugo Oliveira (baixo), cujas interpretações se destacaram pela expressividade e perfeita integração com a orquestra e o coro.
O núcleo central do repertório foi a Cantata de Natal (1ª parte - Cantatas I e II) de Johann Sebastian Bach, uma das obras mais emblemáticas do período barroco e profundamente ligada à celebração litúrgica do Natal. Estruturada em várias cantatas destinadas aos dias festivos entre o Natal e a Epifania, a obra combina coros de grande solenidade com árias e recitativos de intensa carga espiritual. A música de Bach, simultaneamente majestosa e intimista, convidou o público a uma vivência profunda do mistério do Natal, num diálogo constante entre texto, música e fé.
O Coro Polifónico da Lapa, preparado e dirigido pelo maestro Filipe Veríssimo, teve um papel determinante na construção sonora da obra, revelando uma sonoridade que enriqueceu todo o programa.
O concerto culminou com o tema Adeste Fideles, tradicionalmente atribuído a D. João IV, momento particularmente emotivo que contou com a participação do público. Este gesto simbólico transformou a interpretação final num verdadeiro momento de comunhão, unindo intérpretes e ouvintes num cântico coletivo de celebração e esperança.
A noite encerrou sob fortes aplausos e num ambiente de grande emoção, reafirmando o Concerto de Natal na Igreja da Lapa como uma tradição viva, onde a música se alia ao espírito natalício e à partilha comunitária.
Foto de Capa: @pedro.couto
Excerto do Tradicional Concerto de Natal na Igreja da Lapa
Som gravado ao vivo pela Orquestra Filarmónica Portuguesa